segunda-feira, 23 de agosto de 2010

domingo, 22 de agosto de 2010

samba dos ancestrais

Se teu corpo se arrepiar
Se sentires também o sangue ferver
Se a cabeça viajar
E mesmo assim estiveres num grande astral

Se ao pisar o solo o teu coração disparar
Se entrares em transe em ser da religião
Se comeres funji, quisaca e museque de carapau
Se Luanda te encher de emoção

Se o povo te impressionar demais
É porque são de lá os seus ancestrais

Pode crer no axé dos teus ancestrais...

SAMBA DOS ANCESTRAIS
Martinho da Vila e Rosinha de Valença

domingo, 8 de agosto de 2010

sábado, 7 de agosto de 2010

nós, brasileiros

Nós, os brasileiros, somos queridos em todos os cantos do mundo. Nós, os brasileiros, somos alegres e simpáticos. Nós, os brasileiros, fazemos amizade fácil: um conhecido vira “irmão” de um instante para o outro. Ou de um copo de cerveja para o outro. Nós, os brasileiros, produzimos boa música. Sabemos tocar pandeiro. Podemos sorrir para todo mundo. Somos amados e admirados. Somos superestimados, já diria um amigo meu. Na tese dele, o mundo nos olha com entusiasmo demais. Aos olhos dos estrangeiros, somos “tudo isso e mais um pouco”. E talvez sejamos mesmo, meu amigo. Se isso é bom ou ruim, eu não sei. O que eu sei é que isso faz uma baita diferença quando “moramos no estrangeiro”. É a batida do pandeiro, é a moqueca de ovo, é a boa música, é o sorriso fácil, é a amizade rápida. É “tudo isso e mais um pouco” que nos ajuda a viver longe do Brasil. E, quando voltarmos ao Brasil, não seremos mais superestimados. Seremos só nós, os brasileiros.

sábado, 12 de junho de 2010

parque da Kissama

O Parque Nacional da Kissama fica a 80 km de Luanda. A reserva ocupa uma área de mais de 960 mil hectares. E tem uma história interessante: durante a guerra civil, que durou 27 anos, a caça predatória e a presença dos guerrilheiros simplesmente fizeram desaparecer os animais que ali viviam. Em 2000, a ONG "Fundação Kissama" criou o projeto "Arca de Noé" para "repovoar" o parque. Foram trazidas 6 espécies diferentes (35 elefantes, 4 girafas, 12 guinus, 12 zebras, 12 congos e 8 gungas, na foto). Deu certo. Os animais conseguiram se reproduzir e, hoje, já são centenas. Muitos dos caçadores se tornaram fiscais do parque, e a reserva começa a receber turistas do mundo todo.





segunda-feira, 31 de maio de 2010

vagas


O Ministro não tem pasta, mas tem vaga na rua.

domingo, 23 de maio de 2010

rotina

Comunidade do Caxito, na Província do Bengo. No fim da tarde, após um dia de vendas na rua, mãe e filhos voltam pra casa.

à fogueira

Olhar simpático e fala mansa. À frente da fogueira, conta histórias dos antepassados. Relembra antigas fábulas contadas há dezenas de anos nos vilarejos mais distantes. Ganha o olhar atento de todos que estão em volta. Crianças e adultos. É ele que indica os caminhos a seguir. Estamos a falar do "SOBA"; em algumas tribos e comunidades de Angola, ainda encontramos esta figura que resiste ao tempo e à "ocidentalização". O Soba atua como um líder religioso, espiritual e político. O "cargo" é sempre atribuído aos mais velhos. Tem o peso da idade, mas é dela que tira a sabedoria.


segunda-feira, 17 de maio de 2010

dança


bailarina que acompanha uma dupla de marimbeiros.

domingo, 16 de maio de 2010

segunda-feira, 3 de maio de 2010

caos no trânsito

Um dos motoristas que faz o circuito casa-TV chama-se Carlos*. Entre os brazucas, ele é conhecido como “Seu Carlos Schumacher”. Ver o seu Carlos dirigindo é uma verdadeira aventura. Quando lembramos que estamos dentro do carro, a aventura vira um pesadelo. Seu Carlos é impaciente. Não dá passagem pra ninguém. Quando vê uma velhinha atravessando a faixa, acelera o carro. Quando acha que o motorista da frente poderia ser mais ágil, enfia a mão na buzina. Seu Carlos não gosta de ver espaços vazios na rua. Vai logo preenchendo com o carro. Mesmo que a manobra seja proibida. Anda colado no carro da frente, pra ninguém ganhar a posição. Após cada viagem bem sucedida com o seu Carlos, penso que sou o cara mais sortudo do mundo.

Seu Carlos é apenas 1 entre os milhões de motoristas de Luanda. A maioria igual ou pior que ele. Soma-se a isso, a inexistência de semáforos nas esquinas da cidade. Um caos completo. Só nos primeiros 3 meses de 2010, foram registradas 660 mortes em acidentes de trânsito. Uma média de 7 por dia. Dados oficiais.

*nome fictício

domingo, 25 de abril de 2010

miradouro da lua

As falésias em harmonia com o mar deixam o cenário deslumbrante, dispensam apresentações.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

quarta-feira, 21 de abril de 2010

o profeta

Alcino Roberto Firmino, 37 anos. Natural da província do Zaire. Separou-se da família durante a guerra civil, que durou 27 anos e só veio a acabar em meados de 2002. Fugiu para Luanda, como fizeram milhares de outros angolanos. (durante a guerra, a capital, que tinha 600 mil habitantes, passou a ter 6 milhões). Alcino se casou com Raquel Kissanga Firmino, 30 anos. O casal tem três filhos, e vive no bairro do Golf, periferia de Luanda. “Cheguei aqui sozinho, sem nada. Cada um da minha família foi pra um lado. A guerra separou todo mundo”, lembra.

Já se vão oito anos desde o fim dos conflitos. Tempo precioso para o Alcino. Ele se graduou e, hoje, é professor de matemática. Recebe a nossa equipe em casa, com uma camiseta da seleção da Alemanha. Peço para ele trocar de roupa, por causa das marcas de publicidade. Volta, todo sorridente, com uma camiseta do Che Guevara:

- “Tá melhor assim?”
- “Muito melhor”
- “Me chamam de profeta”
- “Porquê?”

Alcino faz uma pausa. O olhar vai longe.

- “Esse tempo que eu tive longe da minha família, por causa da guerra, foi muito difícil. Não é só a saudade, não. A gente também fica com medo de que alguém morra, da gente nunca mais ver aquela pessoa.”

E são muitas as pessoas da família que Alcino não vê. Não sabe se estão mortas ou espalhadas em outras províncias de Angola:

- “Eu comecei a procurar. Achei um tio, uma sobrinha, um irmão… E fui juntando todo mundo. Por isso me chamam de Profeta.”

O Profeta costuma reunir a família em um ritual que ele chama de “sentada familiar”. Logo cedo, vai com as mulheres ao mercado. O lugar é imenso. Milhares de barracas a céu aberto oferecem frutas, temperos, legumes, celulares, camisteas, panos, farinha, panelas… Os compradores se espremem nos pequenos corredores, lutam por qualquer espaço vazio.

Alcino, a mulher Raquel, e duas cunhadas percorrem o mercado em menos de uma hora. Um rapaz franzino está junto do grupo. Em troca de alguns Kwanzas (1 dólar = 95 Kw), ele carrega as compras.

De volta à casa, Alcino começa a receber os familiares. As mulheres se ocupam com a comida. As meninas mais velhas também ajudam. Os putos brincam em volta da mesa. Tudo é feito ao ar livre, nos fundos da casa. Vamos experimentar alguns dos pratos típicos de Angola.

FUNGE – é uma massa feita com farinha de mandioca e água.

KISACA – a kisaca é a folha da mandioca, temperada com amendoim moído, alho e óleo de palma (mais ou menos, um azeite de dendê).

FÚMBUA – é uma erva tradicional, que vem da região norte do país.

MUTETA – prato feito com bagre seco e semente de abóbora.

A kisaca e a fúmbua temperam o Funge. No cardápio, também teremos mandioca, batata doce e carne seca. Tudo prepararado no chão de terra batida, com carvão em brasa.

O quintal da casa já está cheio. Alcino serve a cerveja Cuca (de fabricação nacional). “Cerveja tem que ser Cuca”, afirma o produtor da nossa equipe, cheio de orgulho. “As cervejas estrangeiras não são boas”. À esta altura, homens e mulheres já se misturaram. A comida vai sair daqui a pouco.

O Profeta inicia um discurso: “Meus discípulos, é sempre um grande prazer receber todos aqui. A nossa família é grande, e os amigos que estão aqui também são da família. Hoje, mais uma vez, nós preparamos comida boa. Espero que gostem, meus discípulos”. Os discípulos respondem com gargalhadas e uma salva de palmas.

Tudo é feito com descontração. O Profeta Alcino não prega nada. Não quer a subserviência de ninguém. Ele só quer tomar uma Cuca gelada, com os amigos e com a família.

- “Alguma história triste pra nos contar, Alcino?”
- “História triste? Não vamos falar de tristeza, meu kamba!”

Alcino Roberto Firmino, 37 anos, o Profeta. Um professor de matemática que cura as feridas da guerra com alegria e bom humor.















*putos: meninos, garotos
*kamba: companheiro

segunda-feira, 19 de abril de 2010

sangano

Hora de sair um pouco de Luanda. Essa aí é a praia de Sangano.

domingo, 18 de abril de 2010

olhares

As Fotos abaixo foram tiradas durante uma "sentada familiar", tema do próximo texto.
















a lua


zungueiras



















É um exercício de força e equilíbrio. Os filhos, colocados nas costas, fazem o caminhar suave das zungueiras parecer ainda mais incrível. Elas vendem banana, peixe, frutas, azeitona, carvão... Vendem de tudo. Os preços, claro, são negociáveis. Estão espalhadas por toda cidade. Já fazem parte da confusa paisagem de Luanda.


sexta-feira, 16 de abril de 2010

quinta-feira, 15 de abril de 2010

sexta-feira, 9 de abril de 2010

primeiras impressões

Clima quente e abafado. Um sol de matar ajuda a entender a expressão “calor africano”. Estamos perto do mar. Mas isso não é sinal de que uma brisa leve vai passar a qualquer momento. Não vai passar. Melhor correr. Achar logo uma sala com ar condicionado. Ar condicionado, diga-se, funcionando a todo vapor graças aos milhares de geradores que garantem a energia de Luanda. Depois de uma semana por aqui, o trajeto casa-trabalho ainda é interessante. Impossível não comparar cada cena, cada imagem, cada expressão com tudo aquilo que a gente está acostumado. “Bom dia”, disparo ao motorista que nos leva ao trabalho. “Obrigado”, me responde, com uma cordialidade peculiar. Oito lances de escada se vão (o elevador está quebrado) e, finalmente, chego ao último andar do prédio onde fica a redação. Muitos “obrigados” depois, já tenho o aconchego do ar condicionado. Os colegas brasileiros, muito simpáticos, demonstram cumplicidade. Todos aqui estão longe de casa, dos amigos, das mulheres, dos maridos… Os colegas angolanos transbordam bom-humor. Cada “novato” que chega é uma atração à parte. Curiosos, como bons jornalistas, querem saber de onde venho, se já conhecia a África. Lá fora, centenas de gruas cortam o ceú da cidade. Os operários chineses levantam as obras em velocidade impressionante. Da varanda, posso ver a quantidade de prédios que vão surgir. São muitos. São a prova de que o país está “a crescer”. “Angola é o país do futuro”, profetiza um deles. Por que não?

china

Não é só a mão de obra chinesa que seduz os governantes angolanos. O país asiático é um importante parceiro econômico. Essa notícia dá uma boa noção disso:
http://www.angonoticias.com/full_headlines_.php?id=27192

SOBRE OS OPERÁRIOS CHINESES:
trabalham em 3 turnos de 8 horas. a obra não para nunca. Por isso os prédios sobem tão rápido. Outra coisa interessante: muitos dos "chinocas" que estão aqui são presidiários lá na China.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

o país do futuro














Chega a noite em Luanda. As gruas que cortam o céu da cidade descansam sem a companhia dos operários chineses. Como diz um "kamba" do trabalho, Angola é o país do futuro. Nossos irmãos angolanos vivem uma mistura de orgulho e expectativa. A guerra civil acabou há 8 anos. É hora de olhar pra frente. À noite, quando a cidade dorme, o povo daqui sonha com o que os "tempos de paz" vão trazer.

chuva, Lula e Deus

O temporal no Rio de Janeiro também é destaque nos jornais angolanos. O principal do país, "Jornal de Angola", destaca a frase do presidente Lula.
http://jornaldeangola.sapo.ao/13/0/dezenas_de_mortos_em_temporal_no_rio

água e luz

Dois problemas constantes aqui em Luanda: falta de água e falta de luz. Atingem a todos. Quem tem condições, equipa a casa com geradores de energia. A água, muitas vezes, vem de caminhão-pipa. Mas a maioria é obrigada a esperar...
http://www.angonoticias.com/full_headlines.php?id=27164
http://www.angonoticias.com/full_headlines_.php?id=27175

terça-feira, 6 de abril de 2010

"entrou água"















Minha primeira reportagem em Angola. O destino era o Parque Nacional da Kissama, a cerca de 80 km de Luanda. Mas "entrou água", como dizem na Bahia. O carro quebrou no meio do caminho. Fica pra próxima.

segunda-feira, 5 de abril de 2010